O livro, esse objeto de estudo


Recém-criado Núcleo de Estudos do Livro e da Edição, o Nele, lança revista que trata das várias configurações do livro, tanto como objeto de prazer cultural como, principalmente, tema de estudos

MARCELLO ROLLEMBERG

Criado recentemente, o Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (Nele) da Escola de Comunicações e Artes (ECA), visa a ser, no ambiente universitário, uma espécie de “laboratório” no qual o livro e todas as suas ramificações editoriais sejam, além de um objeto de prazer cultural, também um objeto de estudo. A ideia é pertinente, posto que nesses tempos de comunicação eletrônica e tablets se tornou quase um clichê a discussão sobre o fim do livro em seu suporte de papel.

Livro: além de um objeto de prazer cultural, também um objeto de estudo

O Nele, então, surge justamente numa quase contramão dessa discussão bizantino-tecnológica, mas com uma função essencial e, por assim dizer, up to date, posto que pretende encerrar discussões as mais contemporâneas – por mais que trate, muitas vezes, do passado e da história da edição. Mas, como já se escreveu (e não foi num post), é preciso compreender o passado para se projetar o futuro. É justamente dentro desse quadro que acaba de ser lançada a revista Livro, o primeiro fruto do núcleo. A revista é, segundo seus editores, os professores Plinio Martins Filho e Marisa Midori Deaecto, ambos do curso de Editoração da ECA, o resultado de “um esforço coletivo de professores e pesquisadores no sentido de materializar um fórum aberto à reflexão, ao debate e à difusão de pesquisas que têm na palavra impressa seu objeto principal”.

A Livro, que foi lançada oficialmente no último dia 5 durante o evento Os Poderes do Livro, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, pretende cobrir, por meio de seus artigos, todo o “ciclo de vida da comunicação impressa” – uma expressão cunhada pelo historiador do livro e da leitura Robert Darnton, um dos maiores especialistas mundiais sobre o tema. Em suas pouco mais de 200 páginas (algumas delas ilustradas com trabalhos do artista Hélio Cabral), a revista apresenta seções como Leituras – que traz quatro artigos acerca do hábito de ler em seus mais distintos matizes, e na qual se destacam os textos “Leituras de presença e ausência”, da professora Jerusa Pires Ferreira, e “Leituras da época do modernismo”, de Ruy Galvão de Andrada Coelho –, “Acervo”, “Almanaque” e “Bibliomania”, além de apresentar uma crônica bem-humorada de Olavo Bilac acerca do trabalho e do papel social dos “homens de letras”. “Fantasio” – título do texto bilaquiano – foi garimpado nos arquivos do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) pelo professor Antonio Dimas.

Dossiês – Em meio a tantos artigos de fôlego, a revista, na verdade, terá um carro-chefe: a sua seção Dossiê, que a cada número apresentará uma série de estudos voltados para uma temática ou um evento que marcou data entre os estudiosos do livro. Nesse número de estreia, o dossiê é Paris-Bucarest. “Trata-se da recolha sumária, porém significativa, da produção apresentada em dois importantes colóquios realizados em setembro de 2010”, escrevem os editores na apresentação da revista.

“O Encontro de Paris reuniu pesquisadores franceses, portugueses e brasileiros, tendo resultado em importante projeto de cooperação internacional apresentado no final da seção. O simpósio promovido pela Biblioteca Metropolitana de Bucarest se apresentou como verdadeiro fórum internacional de pesquisa, no qual foram discutidas questões voltadas ao Livro, à Escrita e à Leitura, em diversos domínios do conhecimento.” Nesse dossiê inaugural são apresentados cinco textos, entre eles “A evolução do sistema editorial francês desde a Enciclopédia de Diderot”, do pesquisador francês Jean-Yves Mollier, e “A circulação transatlântica dos impressos: a globalização da cultura no século XIX”, da estudiosa brasileira Márcia Abreu.
O que Livro e o núcleo que a gerou, o Nele, desejam, de fato, não é cerrar fileiras contra aqueles que apregoam o fim do livro como o conhecemos, mas sim mostrar como a convivência pode ser harmoniosa entre os suportes, sem que seja necessário se engendrar uma cruzada livresca. É como escrevem seus editores: “Podemos dizer que o objetivo maior de Livro reside na valorização do suporte impresso diante das mudanças a que temos assistido no campo da produção editorial. A convivência de diferentes suportes de leitura, de natureza totalmente distintas, algo impensável nos primeiros quinhentos anos que marcaram a era de Gutenberg, trouxe à tona uma série de questionamentos concernentes ao direito autoral, às formas de circulação do texto, às práticas de leitura em multimeios, às políticas educacionais etc.

De fato, o advento do texto digital abriu novas possibilidades às velhas formas de transmissão da linguagem escrita e de conservação de seu registro”. E Plinio Martins Filho e Marisa Midori concluem, em seu texto de apresentação à revista: “Todavia, poder-se-ia dizer que à anunciada morte do livro somaram-se vozes que bradaram por sua sobrevivência, em acalorada declaração de amor aos já velhos e surrados códices”.

Fonte: http://espaber.uspnet.usp.br/jorusp/?p=15270

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